sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Ceia Eucarística em São Pedro

Irmã Olinda tinha chegado fazia poucos dias do Brasil para completar seus estudos em Roma e preparar-se para uma das missões da Congregação. Na tarde da Quinta Feira Santa, a superiora perguntou à Irmã Teresa se poderia acompanhar a jovem brasileira em São Pedro, onde tinham conseguido dois ingressos para a Missa do Lava-pés.

A basílica resplandecia de luzes e a irmãzinha estava deslumbrada com tantas maravilhas. O lugar reservado a elas permitia uma magnífica visão do conjunto. O papa presidia, rodeado de cardeais, arcebispos, bispos e uma multidão de sacerdotes, tudo num oceano de cores e de sons que a deixavam assombrada. Lembrou o carnaval do Rio que a televisão levava fielmente, todos os anos, até o coração da mata amazônica onde tinha nascido. Envergonhou-se logo desse pensamento desrespeitoso e procurou concentrar-se no solene rito que se desenvolvia debaixo de seus olhos. Nos primeiros bancos e nos lugares a eles reservados, os membros do Corpo Diplomático e da nobreza romana ostentavam seus trajes de cerimônia, austeros os dos homens, elegantíssimos os das mulheres.

Em suas cabines, discretos, mas em plena atividade, os operadores de TV captavam e enviavam para o mundo as imagens que ela observava com seus próprios olhos.

Procurou acompanhar a homilia do papa, mas não conseguiu por muito tempo: conhecia já bastante a língua italiana, mas a pregação lhe resultava difícil.

Lembrou a última Semana Santa passada em sua comunidade, antes de entrar no noviciado. Tinha apenas vinte anos, mas era a líder incontestada do Cabresto, uma comunidade rural distante uns 30 km da sede do município. Não tinha nascido ali, mas ali tinha crescido desde menina. Tinha freqüentado a pobre escola do lugar, com uma única professora que ensinava o pouco que sabia a todos os garotos e garotas dos 6 aos 12 anos. Tinha-se distinguido tanto que, quando a velha professora se mudou para a cidade, com a família, os pais do Cabresto tinham pedido ao prefeito que colocasse ela no lugar. Seu nome de batismo era Olinda, mas todos a tinham sempre chamado Lindinha e também quando se tornou professora, pais e crianças continuaram tratando-a de Lindinha.

Nesse tempo o vigário veio celebrar a Missa no Cabresto. O fazia todos os meses, quando podia. Quis saber se alguém poderia cuidar do catecismo. Todos concordaram que ninguém poderia fazê-lo melhor que ela. Muito jovem, franzina, com um sorriso tímido e a voz doce, era respeitada naturalmente por todos. Participava na paróquia dos cursos de catequese e de formação das lideranças, gostava de ler e procurava manter-se informada o tanto que o isolamento da floresta lhe permitia.

O único que não a suportava era o Dr. Vitalino, dono de uma grande fazenda no Cabresto. Algum tempo atrás uma longa estiagem tinha prejudicado a colheita dos lavradores: o café andou perdido, o cacau sucumbiu pelas pragas e a mandioca saiu raquítica. O Dr. Vitalino quis aproveitar o momento favorável para adquirir a preço de banana as terras dos pequenos proprietários, para aumentar a sua propriedade. Mas Lindinha não tinha freqüentado à toa os cursos de lideranças na paróquia. Visitou uma a uma as famílias da redondeza, reuniu noites seguidas a comunidade. Conseguiu convencer o pessoal a resistir... Quem ia para a cidade fazia as compras para os vizinhos, aprenderam a comprar no atacado, foram vender seus produtos na capital, para conseguir preços melhores... Em suma, Lindinha tinha feito descobrir a seu povo as vantagens da união e da organização. Ninguém cedeu diante das ofertas do Dr. Vitalino que jogou a culpa na jovem professora. Nunca mais a perdoou.

Mas essas eram coisas do passado. Agora precisava preparar a Semana Santa. E o fez com sua costumeira competência, ajudada pelos alunos e as moças da comunidade.

Tinham esperado que o pároco fosse celebrar a Missa da Quinta Feira Santa, mas a chuva tinha interrompido a estrada.

Ao entardecer, tudo estava pronto na branca capelinha no meio do mato. Os jovens e os garotos, vindos no começo da tarde, já andavam por ali, após terem tomado banho e vestido suas roupas de festa no riacho próximo. Foram chegando os adultos com as crianças pequenas. Apareceu também a família Sarges. Pertencia à Assembléia de Deus, mas quando seu pastor não vinha, participava com gosto nas celebrações da “professora Lindinha”.

O filho da viúva Raquel trouxe uma bandeja com os doces preparados pela mãe, que, porém, não viria porque sua muleta tinha quebrado. Mas Lindinha não se conformou. Chamou um dos jovens:

- Tavico, junta três ou quatro colegas e tragam aqui a senhora Raquel que não pode caminhar.

Pouco tempo depois o grupo fazia a sua solene entrada na capela: quatro jovens seguravam uma robusta vara na qual estava amarrada a rede que trazia a senhora Raquel, radiante.

Agora estavam todos. Isto é, quase todos. O Dr. Vitalino e sua família tinham viajado no sábado para ir passar a Semana Santa em Salinas, a praia da gente fina da capital.

A celebração saiu bonita mesmo. A Lindinha (quero dizer, Irmã Olinda) sente a saudade apertar sua garganta lembrando aquela noite.

Nonato tinha sido particularmente bem sucedido comentando o Evangelho da instituição da Eucaristia, recordando a luta de dois anos antes e tinha-se emocionado relembrando gestos de solidariedade que, a partir de então, transformara o Cabresto numa verdadeira comunidade.

No lava-pés as crianças tinham lavado os pés dos pais, que receberam a homenagem com a maior seriedade. Durante o ofertório foi fita a coleta, cuja arrecadação seria destinada ao Sr. Feitosa, que estava em Belém, ao lado da mulher recém operada.

Terminado o culto, os objetos litúrgicos e as toalhas foram guardados no armário e o altar voltou a ser a mesa sobre a qual as mães foram colocando – não sem uma pontinha de orgulho – sua respectiva “janta”.

- “Comeremos todos juntos o que cada uma tiver trazido” era o lema de suas refeições comunitárias.

A novidade daquela noite foi o conteúdo da bandeja da senhora Anália, matriarca da família Neves, recém chegada no Cabresto, de Minas Gerais. Poucos dos presentes conheciam o pão de queijo mineiro, mas a novidade teve sucesso total.

Aí o velho Neves contou como a Semana Santa é celebrada na sua terra. Mais tarde as gêmeas da família Sívori, descendentes de italianos e procedentes do Rio Grande do Sul, cantaram uma canção que os jovens de lá usam enquanto passam, em grupos, de casa em casa para recolher ovos que, devidamente pintados e cozidos, serão comidos após a celebração da noite de Sábado Santo.

A única nota triste foi provocada por ela, Lindinha.

- Como vocês sabem, esta é a última Semana Santa que passo com vocês. No próximo mês deixarei o Cabresto para entrar na casa de formação das Missionárias de Maria.

- Porque vás embora? Es tão preciosa aqui! Ou nós não somos filhos de Deus?

- São, sim, senhor Sívori. Veja, acabamos de celebrar a Última Ceia. Nos dissemos que não podemos pensar só em nós. Eu gostaria que também outras pessoas pudessem conhecer as coisas bonitas que o Senhor fez e faz para seus filhos e filhas. Vocês já o sabem.

- E a senhora, Dona Dora, vai deixar sua filha ir embora?

- Senhor Sívori, suas crianças são ainda pequenas. Mas logo vão crescer e o senhor entenderá que os filhos nós os fazemos, com a graça de Deus, mas não são nossos...

Irmã Olinda sente uma forte saudade daqueles momentos tão intensos. Mas a Irmã Teresa a sacode. Chegou o momento da comunhão.

Enquanto avança lentamente na fila, sente-se culpada pela longa distração. Quando chega a sua vez, estende a mão para receber a hóstia, mas o padre, com gesto mecânico, enfia a partícula em sua boca.

De volta ao seu lugar, a emoção das lembranças se transforma num choro suave e melancólico, que procura esconder cobrindo o rosto com as mãos.

Chegam em casa já tarde. As Irmãs que participaram da Missa na paróquia já estão dormindo. Também a Irmã Olinda se retira no seu quarto. Antes de adormecer, ouve a superiora que pergunta à Ir. Teresa:

- E então, nossa brasileirinha gostou da cerimônia?

- Acho que sim. Quando saímos de São Pedro tinha os olhos vermelhos...

- Pode apostar! Lá, no meio do mato uma cerimônia como esta, ela não ia poder nem sonhar.


Sávio Corinaldesi

domingo, 10 de janeiro de 2010

COMO NASCE UM PARADIGMA:


Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas.
Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nuncatendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas.
Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Dia do Senhor




 O Dia do Senhor


Imagine um dia de domingo em todo o mundo
De repente as portas dos santuários se abrem
Multidões a transpõem, em sentido contrário, fecundo
Ruas e vielas descobertas tandem

Hospitais, hospícios, presídios e abrigos
Se tornam o alvo dessa procissão
Os homens e não as coisas, a semente de trigo
Morrendo para renascer, sair da desilusão

E em todos esses lugares de dor
Estão verdadeiros santuários perdidos
Edificados pelo próprio Criador
Ainda longe de serem remidos

Mas nesse domingo outra é a história
As mão se erguem para ajudar a massa
Aos feridos de alma, a presença da glória
Aos necessitados se manifesta a graça

Santuários de pedra se desfazem
E pedras vivas edificam ao Criador
O amor que a cada uma das vidas trazem
No verdadeiro Dia do Senhor.

domingo, 1 de novembro de 2009

sábado, 24 de outubro de 2009

TRECHOS DE: "A CONQUISTA DO PÃO" por Kropotkin - 1892

Todas as máquinas têm a mesma história de noites em claro e de miséria, de desilusões e de alegrias; melhoramentos parciais achados por diversas legiões de obreiros desconhecidos que vinham acrescentar ao invento primitivo esses pequenos nadas, sem os quais a idéia mais fecunda fica estéril.

Cada descoberta, cada progresso, cada aumento da riqueza da humanidade tem o seu princípio no conjunto do trabalho manual e cerebral do passado e do presente.

Logo, com que direito poderia alguém apossar da menor parcela desse imenso patrimônio e dizer: isto é meu, não é vosso?

“O que se pode dizer dos inventores em geral é o que se tem dito dos sábios. Quem não sabe que preço de sofrimentos custaram as grandes invenções!

Noites em claro, privações de pão para a família, falta de utensílios e de matérias-primas para as experiências, é a história de todos os que têm dotado a indústria com o que faz o orgulho, o único justo, da nossa civilização.

Mas que é preciso para sair destas condições que todo o mundo é unânime em achar más? Ensaiou-se a patente, cujos resultados são conhecidos. Faminto o inventor vende-a por qualquer preço e quem não fez mais que emprestar o capital é quem embolsa os lucros muitas vezes enormes, da invenção. Por outro lado a patente isola o inventor. Obriga-o guardar o segredo das suas pesquisas, que muitas vezes conduzem a um tardio desengano;”

“Quando a Inglaterra quis ter um grande dicionário da sua língua, fêz um apêlo aos voluntários e mil pessoas vieram espontâneas escavar as bibliotecas e terminaram em poucos anos o que um homem só não faria numa vida inteira.

Para que esta obra fôsse verdadeiramente coletiva, seria preciso organizá-la de modo que cinco mil volntários autores, impressores, e revisores, tivessem trabalhado em comum; mas deu-se êsse passo para frente, graças à impressa socialista, que já nos oferece exemplos do trabalho manual combinado com o intelectual.

É o caminho da liberdade. No futuro, quando um homem tiver qualquer coisas mil a dizer, uma palavra que vá além das idéias do seu século, não procurará um editor que lhe adiante o capital necessário. Procurará colaboradores entre os que conheceram a profissão e tenham compreendido o alcance da nova obra e publicarão juntos o livro ou o jornal.

(…) Só no dia em que as letras e a ciências se virem livres da escravidão mercenária tornarão o seu verdadeiro lugar na obra do desenvolvimento humano.”

a excessão da regra que falei que não iria fazer: reforma agrária, quando? já! :

“compreender que saber o que se come e como se produz é uma questão de interesse público, quando toda a gente tiver compreendido que esta questão é muito importante, infinitamente mais importante que os debates do parlamento e do conselho municipal, – neste dia a revolução estará feita.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

DEFINIÇÃO DE SAUDADE


Como médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional (...) "... posso afirmar que cresci e modifiquei-me com os dramas vivenciados pelos meus pacientes. Não conhecemos nossa verdadeira dimensão até que, pegos pela adversidade,descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Comecei a freqüentar a enfermaria infantil e apaixonei-me pela oncopediatria. Vivenciei os dramas dos meus pacientes, crianças vítimas inocentes do câncer. Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento das crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim! Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injeções e todos os desconfortos trazidos pelos programas de químicos e radioterapias. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar. Vi-a chorar muitas vezes; também vi medo em seus olhinhos; porém, isso é humano! Um dia, cheguei ao hospital cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe.. A resposta que recebi, ainda hoje, não consigo contar sem vivenciar profunda emoção. " - Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade. Mas, eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!" Indaguei: - E o que morte representa para você, minha querida? " - Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e, no outro dia, acordamos em nossa própria cama, não é?”(Lembrei das minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, com elas, eu procedia exatamente assim.) - É isso mesmo. "- Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!" Fiquei "entupigaitado", não sabia o que dizer. Chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou, a visão e a espiritualidade daquela criança. "- E minha mãe vai ficar com saudades, emendou ela." Emocionado, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei: - E o que saudade significa para você, minha querida? - Saudade é o amor que fica! Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais direta e simples para a palavra saudade: é o amor que fica! Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas, deixou-me uma grande lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores. Quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo "meu anjo", que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela uma fulgurante estrela em sua nova e eterna casa. Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que me ensinaste, pela ajuda que me deste. Que bom que existe saudade! O amor que ficou é eterno.
Rogério Brandão
Médico oncologista clinico
RC Recife Boa Vista D4500

domingo, 16 de agosto de 2009

QUEM SOU EU NA MULTIDÃO?

E a multidão que ia adiante, e a que seguia, clamava, dizendo: Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas! (Mt 21:09)

Disse-lhes Pilatos: Que farei então de Jesus, chamado Cristo? Disseram-lhe todos: Seja crucificado. (Mt 27:22)

Multidões, multidões no vale da decisão; porque o dia do SENHOR está perto, no vale da decisão. (Jl 3:14)

Não é interessante pensar sobre um povo que recebe seu Messias com honras de Chefe de Estado e em questão de dias declara expressamente que o mesmo deve ser crucificado?

Mais interessante ainda pensar sobre qual seria a nossa decisão se estivéssemos entre aqueles que formaram o comitê de boas vindas ao Amado e posteriormente na comissão julgadora que definiria sua liberdade ou sua crucificação.

Com certeza hoje, nós, cristãos verdadeiros, diríamos: Não! De maneira nenhuma eu estaria entre os que disseram crucifica! E o faríamos com a mesma convicção de Pedro ao dizer ao Amado que jamais o negaria.

Sim, porque com a mesma convicção que em nossas ministrações o adoramos com juras de amor eterno, logo em seguida o crucificamos novamente com a prática do nosso pecado. No primeiro momento honras e alegrias ao Amado, no segundo vergonha e dor.

(...), pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério. (Hb 6:6b)

  • Será que conheço minha identidade em Cristo?

Se nos lembrarmos de Gideão e seu exército, podemos pontuar duas situações bem interessantes:

1ª) Nosso amigo Gideão não tinha a menor idéia de quem era em Deus. Com isso vivia escondido do inimigo, amedrontado e com grande complexo de inferioridade. Note que no versículo 12 do capítulo 6 do livro dos Juízes o Anjo do Senhor diz que ele é um poderoso guerreiro (NVI). Deus sabia quem ele era e segundo o versículo 14 do capítulo seguinte, o inimigo também. Gideão era o único que desconhecia sua identidade em Deus.

2ª) Observando seu exército percebemos que a proporção entre o número inicial dos alistados (32.000) e o final (300), foi de, apenas, 0,9%. Menos de 1% da multidão de soldados convocados foi selecionado para guerrear. Da mesma forma, se considerarmos que dos onze apóstolos aparentemente fiéis, fora o Iscariotes, filho da perdição, João foi o único que acompanhou o Amado até a cruz, enfrentando a tudo e a todos, teremos a mesma marca de 0,9%.

O que quero compartilhar nessa introdução é que há um grande abismo entre ser um cristão (homens e mulheres que procuram ser semelhantes a Jesus) e ser membro de uma denominação cristã. Há quem diga que nosso país possui mais de trinta milhões de cristãos, contando-se apenas o segmento evangélico e que ele será um país cristão. A pergunta que me assusta é: de que cristianismo estamos falando? Do mesmo que fez a Inglaterra (país dito cristão-protestante) arrasar a Índia, partes da África e outros países colonizados trazendo escravidão, miséria, fome e mortandade de seres humanos? Ou será aquele que criou ou apoiou movimentos criminosos como a Klu Klux Kan, Nazismo, Apartheid e outros? Quem sabe não seria esse, que nos dias atuais tem sido tão pregado nos púlpitos transformados em palco, prometendo o céu na terra e a resolução de todos os problemas de quem aceitá-lo? Interessante como a História caminha em círculos e sempre se repete apenas com outra roupagem. Na era medieval loteava-se o céu e vendiam-se os lotes para quem quisesse ser salvo. Hoje dizem que com Cristo a salvação já está garantida, mas para se viver bem aqui, antes de ir pro céu, basta comprar as bênçãos do Pai com todas as facilidades como cartões de crédito, boletos bancários, cheques pré-datados ou, preferencialmente, a vista.

Cristianismo é a vida de Cristo em nós. No livro de Atos, capítulo 11, verso 26 afirma que na cidade de Antioquia, cuja liderança estava com Barnabé, os discípulos foram chamados de cristãos pela primeira vez, pois a vida deles, a começar pelo líder, que segundo o verso 24 era “homem de bem”, era semelhante à vida terrena de Jesus Cristo. Cristo vivia por intermédio de cada um deles e seu principal mandamento era exercido por todos.

Quando perguntamos aos membros das igrejas ditas cristãs de hoje sobre qual o mandamento que Cristo nos ordenou, a resposta da congregação é unânime: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Essa resposta é dada de forma tão contundente que quase faz o prédio de culto tremer. Isso aconteceu em 100% das denominações que visitei ao longo de 20 anos.

Observemos o diálogo entre Jesus e um doutor da lei que o interrogou em Mateus 22:36-40:

“E um deles, doutor da lei, interrogou-o para o experimentar, dizendo:

- Mestre, qual é o grande mandamento na lei?

E Jesus disse-lhe:

- Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”

A resposta dada pelo Amado ao doutor da lei que queria testá-lo foi baseada na lei mosaica conforme Lv 19:18 e Dt 6:5, ou seja, amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo é um mandamento da lei, não da graça. Precisamos entender que a lei mosaica é a base do judaísmo. Cristo não veio para dar continuidade ao judaísmo. O Jesus encarnado nunca ensinou isso como fundamento do cristianismo. O que o Amado ensinou aos discípulos antes de subir a cruz para abrir os portais da graça a todos os que crêem foi:

“Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis”. (Jô 13:34)

Como Ele nos amou? Amando a si mesmo como ordenava a lei? Ou abrindo mão da sua própria vida pelos seus semelhantes? Esse mandamento é o fundamento do cristianismo e, se analisarmos o que o Mestre diz em seguida: “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”, fica claro que ser discípulo, ou cristão, depende diretamente da obediência ao maior dos mandamentos. Quem ama ao próximo como a si mesmo, vive pela lei, mas quem o faz como Cristo o amou, esse vive a plena graça revelada aos homens de boa vontade.

Através do Evangelho Horizontal, iremos percorrer os caminhos bíblicos que nos levarão ao centro da vontade do Pai, onde poderemos entender o quão transformados precisamos ser através da mudança de nossa mentalidade. O que vivemos hoje é um modelo religioso que dura por volta de 1700 anos, iniciado pelo imperador Constantino acrescido das influências de segmentos que foram surgindo ao longo dos séculos.

Quero convidá-lo a embarcar comigo nessa viagem sem volta, pois uma vez manifestando-se a verdade, somos totalmente libertos por ela e, através dessa liberdade em Cristo, descobrimos quem realmente somos nEle.